Criança do sexo oposto ao pai ou a mãe que precise usar banheiro público: “O que fazer?”

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Cotidianamente nos deparamos com questionamentos ou afirmações que nos captam a atenção de diversas formas: alguns são tão instigantes e interessantes e outros são tão absurdos e insensatos que, igualmente, nos fazem refletir sobre eles.

Pensando sobre isto e com a proposta de trazer para o blog uma maior pluralidade de visões e possibilitar diálogos com outros campos do saber, criei este espaço: “O que fazer?”.

A ideia é trazer conteúdos que chamam a atenção e falar sobre eles, de modo breve. Seja com colegas especialistas no assunto, seja fazendo pontuações à luz de alguma área do conhecimento.

Para este primeiro “O que fazer?”, trouxe um questionamento interessantíssimo com o qual me deparei em um grupo de ajuda mútua, no facebook:

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Para falar sobre ele, convidei minha amiga Karla Matos, psicóloga psicodramatista, doutoranda em saúde coletiva e pesquisadora em infância e adolescência.

Bruno Sampaio:

Karla, sabemos que a divisão dos banheiros públicos em masculino e feminino visa a proteger a mulher de eventuais abusos, bem como evitar possíveis constrangimentos aos usuários. E quando se trata de crianças, que precisam ir acompanhadas ao banheiro, quando não se tem um responsável ou alguém de confiança que possa acompanhá-las: o que fazer?

Karla Matos:

Inicialmente eu queria pontuar que considero super importante abrir esses parênteses e debater esse tipo de temática que envolve criança ou comportamento. Existem muitos pais com muitas dúvidas sobre como se comportar.

Especificamente em relação a esse teu tema eu acho interessante que muitos espaços públicos, principalmente espaços mais novos, como shoppings recém-inaugurados, já estão equipados com um banheiro que se chama banheiro família. Quem iniciou essa essa campanha pelo banheiro família foi o ator Ashton Kutcher. Ele se tornou pai e ele trouxe à grande mídia que, às vezes, ele saia com a filha e queria trocar fralda dela, mas os fraldários estavam sempre dentro do banheiro feminino. Ele questionou o porquê de os fraldários se encontrarem sempre nos banheiros femininos. Cada dia mais, isso é a realidade. Acabou essa história de que a mulher é a única responsável pelos cuidados da criança. O pai também pode e deve participar. A ideia do banheiro família, que não tem separação por sexo, é movimento antigo que vem ganhando mais espaço a cada dia, embora, infelizmente muitos espaços ainda não o ofereçam. Em relação à pergunta, é bem simples: se você orienta seu filho a não falar com estranhos, não sair com estranhos e não aceitar nada de estranhos, por que é que você vai entregar seu filho para um estranho acompanhá-lo ao banheiro? Não faz muito sentido você contrariar o que está ensinando aos seus filhos.

Bruno Sampaio:

O que significa…

Karla Matos:

Que ou você entra com a criança no banheiro ou então vai para casa. Esta é a melhor orientação.

Bruno Sampaio:

Algumas pessoas consideram pedir a alguma mulher para acompanhar seus filhos ao banheiro, enquanto esperam do lado de fora. Acredito que esta confiança plena em pedir que alguma mulher estranha acompanhe a criança ao banheiro se dá pelo pouco conhecimento que se tem sobre mulheres que abusam sexualmente de crianças. Geralmente, se pensa que só homens abusam sexualmente de crianças e, muitas vezes, em uma sociedade machista, o abuso sexual cometido por mulheres é desconsiderado ou, em alguns casos, até enaltecido.

Karla Matos:

Infelizmente, dado que independente do sexo do abusador, estamos falando de uma violência que deixa marcas para toda a vida.

Bruno Sampaio:

Sim. Marcas que, muitas vezes, nunca são esquecidas. Então pensando no risco de ser uma mulher abusadora a pessoa convidada a acompanhar a criança ao banheiro: é seguro adotar essa postura ou há riscos de a criança ser abusada neste curto espaço de tempo?

Karla Matos:

Quem trabalha com a temática sabe que em uma situação como essa de você pedir que um estranho acompanhe seu filho ao banheiro é bem pouco provável que vá acontecer algum tipo de abuso.

Bruno Sampaio:

Por que?

Karla Matos:

O abuso é muito complexo. Em geral, o abuso é diferente de um estupro. O estupro, que geralmente acontece com adultos, se trata de uma violência que não é velada. A vítima sabe que foi violentada. Então se uma criança vai banheiro com uma pessoa estranha que tenta, sei lá, tocar nas partes íntimas dela, possivelmente a criança vai gritar, fazer algum alarde. Então é muito difícil que isso aconteça. O que há são muitos casos de crianças que são sequestradas e acabam sendo abusadas e posteriormente mortas por esses maníacos.

Bruno Sampaio:
Sim. O abuso é algo que -tenho percebido em minha experiência clínica- deixa fortes marcas em suas vítimas, às vezes, por toda a vida. É por isso que é tão importante esclarecer e se discutir sobre a temática. Karla, no que se refere à forma de violência, então o abuso se trata de uma violência velada, silenciosa?

Karla Matos:

Sim. No abuso, a criança é seduzida, envolvida. Quando a situação do abuso infantil ocorre, a criança já está tão envolvida que, muitas vezes, ela nem consegue perceber que aquilo é uma violência. É por isso que o abuso uma é coisa tão cruel, tão complexa deixa tantas marcas nas sua vítimas. E retornando a questão inicial, não seria um tipo de caso para se falar em abuso, embora também inspire cuidados e atenção dos pais.


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