Pesquisa da UNICAMP confirma o óbvio: ‘hand spinners’ não aumentam a concentração

spinners na mão
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Apesar de ter se tornado febre mundial -com explosão de vendas no Brasil-, como um brinquedo que promete ajudar no tratamento de crianças com ansiedade, autismo e até TDAH, um novo estudo da Unicamp confirma o que para muitos já parecia óbvio: os spinners, ou fidget spinners, não servem para nada, terapeuticamente falando.

Fidget spinner ou hand spinner é um brinquedo caracterizado por uma estrutura plana com rolamento que gira ao longo de seu eixo. A pessoa deve mantê-lo entre o polegar e os dedos indicador ou médio e girá-lo. Ele pode ser colorido, de plástico, metal ou cerâmica, e ter luzes e formatos inusitados. Febre entre crianças e adolescentes, o brinquedo recebeu até um apelido: inquieteco.

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O dispositivo foi anunciado como uma nova ferramenta capaz de aumentar a atenção e aliviar o estresse e a ansiedade em crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro do autismo (TEA) e outros distúrbios do desenvolvimento. Alguns afirmam que o brinquedo é útil até mesmo para crianças sem qualquer deficiência para aumentar a concentração.

A neuropediatra Maria Augusta Montenegro, professora e pesquisadora do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, é enfática:

Não há evidências de que o spinner seja realmente eficaz para transtornos como TDAH ou TEA. É possível que os movimentos repetitivos possam ser relaxantes e melhorar a concentração. Entretanto, nenhum estudo científico ainda demonstrou a eficácia do spinner. Leia aqui o estudo.

Pensando nisso, a pesquisadora desenvolveu o estudo “O Fidget spinner realmente melhora a atenção?”. O objetivo da pesquisa foi avaliar se o brinquedo aumenta o desempenho de pessoas saudáveis em relação à atenção e à memória verbal.

O estudo foi realizado no ambulatório de neurologia do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp com 34 estudantes de medicina e médicos-residentes entre 18 e 27 anos de idade, sem diagnóstico de transtornos de desenvolvimento ou psiquiátrico ou que estivessem fazendo uso de medicação psicoativa.

Os participantes da pesquisa foram divididos aleatoriamente em dois grupos e foram feitos testes de leitura de sequências de números e letras em ordem direta, inversa e de maneira a reordenar a sequência. Os voluntários do grupo 1 foram orientados a brincar livremente com o spinner enquanto faziam o teste. Já os voluntários do grupo 2 fizeram o teste sem brincar como o spinner. Após o experimento, o desempenho de ambos os grupos foi comparado.

A maioria dos voluntários que utilizou o spinner informou que o brinquedo era irritante e que eles preferiam fazer o teste sem ele. Dois voluntários deixaram o spinner durante o teste e vários fecharam os olhos, tentando se concentrar melhor sem olhar para o brinquedo. Outros revelaram que desejaram parar de girar o spinner enquanto estavam respondendo ao teste ou o girariam no mesmo ritmo que diziam cada número ou letra, se fosse possível.

De acordo com Maria Augusta, a fim de permitir que os voluntários fossem livres para brincar com o spinner, foi escolhido um teste que não incluía nenhuma escrita. Inclusive, foi a partir de observações em sala de aula e de estudos sobre transtorno de movimento estereotipado – movimentos repetitivos que podem ser reprimidos por estímulos ou distrações sensoriais – que se chegou à suposição de que o spinner poderia melhorar a concentração do aluno na lição em sala de aula.

“Esse transtorno é frequentemente observado em pacientes com Transtorno do Espectro Autista, TEA, e outras dificuldades de desenvolvimento. As estereotipias estão associadas à excitação, ao estresse, à fadiga e ao tédio. Alguns pacientes relatam que esses movimentos são relaxantes e aumentam seu nível de atenção”, explica Maria Augusta.

Segundo a especialista, os testes utilizados na pesquisa conduzida na Unicamp foram capazes de avaliar a atenção e memória verbal.

“O spinner não melhorou o desempenho e a capacidade de atenção em adultos jovens. Embora seja necessário realizar um estudo incluindo crianças, é improvável que o spinner melhore a atenção em crianças saudáveis sem distúrbios do desenvolvimento ou TDAH”, reforça Maria Augusta.

A maioria dos participantes do grupo que utilizou o spinner achou o brinquedo “irritante” e que preferiam “fazer o teste sem ele”, segundo informações do Jornal da Unicamp. Ainda segundo o jornal, “Dois voluntários deixaram o spinner durante o teste e vários fecharam os olhos, tentando se concentrar melhor sem olhar para o brinquedo”.

O estudo da pesquisadora condiz com o posicionamento de outros especialistas. Em entrevista ao jornal El País, a psiquiatra infantil Beatriz Martinez foi taxativa:

“No momento, vender um spinner como um remédio para transtornos de déficit de atenção é uma fraude. É preciso pesquisar muito mais. É muito preocupante a tendência da sociedade de vender qualquer coisa como terapêutica sem evidências científicas”.

Álvaro Bilbao, neuropsicólogo e autor do livro El Cérebro del Niño Explicado a los Padres (O Cérebro da Criança Explicado aos Pais), em entrevista ao El País, alertou:

“Conseguir fazer com que uma criança com déficit de atenção se concentre em algo que se move é simples, mas não produtivo porque não tem repercussão no longo prazo. O spinner não regula o sistema atencional, que é o que realmente se precisa trabalhar nesses casos”, argumenta A pesquisa avaliou 34 estudantes de medicina entre 18 e 27 anos saudáveis, ou seja, sem diagnósticos de transtorno psiquiátricos e que não fizessem uso de remédios psicoativos.


www.brunosampaiopsi.com.br

 

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