Opinião: o que o vídeo de Sinead O’Connor tem a nos ensinar?

Sinead O'Connor
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Na última segunda-feira, a cantora irlandesa Sinead o’ Connor publicou um vídeo no Facebook falando sobre seu adoecimento mental e a persistente estigmatização que ainda envolve a temática e sobre sua atual situação.

Veja o vídeo:

Em linhas gerais, a cantora fala sobre seu inexistente suporte familiar, sobre seu estado de humor e sobre a estigmatização da saúde mental:

“Consegui escapar do meu país, do meu estigma, de tudo o que significava tornava banal usar o fato de que eu tenho três transtornos mentais como algo para me bater. É o estigma que mata pessoas, não são os transtornos.”

Alguns portais já noticiaram que a cantora se encontra internada em instituição psiquiátrica, que tem, indiscutivelmente, a sua importância para tratar momentos de crise, em que a família não consegue dar o suporte adequado ao sujeito. No entanto, vale ressaltar, caso não sejam readequados alguns contextos -sejam eles pessoais, familiares ou sociais-, as chances de se ter uma nova crise são altas.

Considero que estamos diante de um contexto em que alguns pontos não são percebidos. Usualmente, tem-se a ideia de que após a alta, o sujeito se encontra bem para levar sua vida, o que, em parte, não é necessariamente verdade. Tentarei abordar as questões a seguir.

Contexto Familiar

Ao que parece, a cantora tem um suporte familiar extremamente fragilizado: foi vastamente noticiado na mídia que a cantora rompeu a ligação familiar em novembro de 2015. À época, a cantora utilizou as redes sociais para publicar mensagem para seus filhos:

Jake, Roisin, Jr., Donal, Eimear, nunca mais vê-los. Tiveram a hipocrisia de vir ao hospital e não estar mais aqui quando eu acordei. Eu sou merda para vocês. Vocês estão mortos para mim. Vocês mataram sua própria mãe. Deixaram-me sozinha durante 12 semanas! Nunca mais quero ver ou ouvir-vos. Assassinos. Mentirosos. Hipócritas. Todos vocês.

Tal realidade parece não ter mudado, quando aborda a questão no vídeo:

De repente todas as pessoas que deveriam te amar e tomar conta de você te tratam como merda. É como uma caça às bruxas.

Atualidade e importância do tema

Embora seja um assunto já amplamente discutido por mim neste canal, o vídeo publicado pela cantora só corrobora a necessidade de permanecermos discutindo-o, na tentativa de desestigmatizar a temática. Estamos diante de um caso de uma pessoa pública que, com toda a sua visibilidade, ainda enfrenta preconceitos e estigmas.

Na foto, percebem-se cicatrizes, que possivelmente denotam episódios de automutilação.

Um breve histórico

Em uma breve pesquisa na internet, é possível perceber que a cantora fala abertamente sobre a temática e torna público o seu sofrimento há pelo menos uma década.

1999: Primeira tentativa de suicídio

2007: Cantora revela a Oprah Winfrey que foi diagnosticada com transtorno bipolar após tentar suicídio em seu aniversário de 33 anos.

2012: Cantora relata outra tentativa de suicídio.

2015: Tentativa de suicídio e rompimento familiar

2016: Inúmeros portais noticiam que a irlandesa está desaparecida e há suspeitas de suicidio.

Estamos portanto diante de um quadro, entre a primeira tentativa de suicídio e hoje, que já dura 17 anos. E que é amplamente noticiado pela mídia há, pelo menos, 10 anos. Veja aqui e aqui.

Invisibilidade

Confesso que não conhecia a cantora, mas em uma breve pesquisa é possível identificar que essa luta contra a estigmatização em Saúde Mental é bem mais antiga do que o vídeo, em que a cantora afirma:

“Transtornos mentais são como drogas. Não dão a mínima para quem você é.”

Outros episódios amplamente noticiados envolvem discussões públicas com outros artistas, além de um tão falado acontecimento em que a cantora rasgou a foto do Papa em um programa de TV, sob justificativa de ter sofrido abusos sexuais por parte integrantes da Igreja.

Diagnosticada com transtorno bipolar, com possíveis episódios de automutilação (como pode se perceber pela foto), além de relatadas várias tentativas anteriores de suicídio, estamos diante de um quadro que a literatura aponta para um enorme potencial de se ter o suicídio consumado. Infelizmente.

Tratando-se de uma cantora com fama internacional, também é possível pontuarmos duas questões:

A primeira é que o fato de se ter dinheiro e uma vida financeiramente confortável não é fator que impede a vivência de episódios depressivos, o que usualmente é questionado. Há, socialmente, um discurso semelhante a

“Você tem uma vida confortável, você tem um bom emprego, você tem uma casa. Veja quantas pessoas não têm. Você não tem razões para ter depressão”

Trata-se, portanto, de uma enorme ignorância daquele que se reporta desta forma.

Outra questão é a importância do suporte familiar: o sujeito com bom suporte familiar tem a recuperação de um episódio de crise imensamente melhor do que aqueles que não o tem, inclusive com menor taxa de reincidência. A família, portanto, pode ser decisiva para o tratamento e a recuperação do sujeito. Caso interesse, há alguns estudos que falam sobre a importância do suporte familiar ao paciente. Acesse.

Sinead O’Connor possivelmente tem condições de ser adequadamente acompanhada por médicos e realizar tratamentos adequados, o que infelizmente não é a realidade de milhões de pessoas pelo mundo, que além de não terem condições de arcar com o tratamento, ainda compartilham com a cantora da mesma invisibilidade.

O caso Sinead pode servir como um alerta que indica como ainda tratamos a questão da saúde mental: apesar de tão gritantemente noticiada, permanece ainda tão invisível.

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