Jovem chinês morre em 1 dos mais de 400 campos para tratamento de adição à internet, na China.

Adição internet foto de um chinês
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O título da matéria não poderia ser diferente: “Jovem chinês morre em campo para viciados em internet”. Não fosse a completa estigmatização que envolve o campo das adicções, o uso do termo “viciado” se justificaria para melhor compreensão do leitor. Mas caminha para o desuso (já se encontra entre os profissionais que se propõem a não categorizar e estigmatizar os sujeitos).

O termo viciado, em si, carrega consigo a intensa estigmatização da palavra, do sujeito e da situação social de vulnerabilidade que os ditos viciados se encontram. Socialmente, tem-se por viciado o usuário de crack, a pessoa em situação de rua, o alcoolista com inúmeras recaídas. De modo geral, têm-se sujeitos que, muitas das vezes, são considerados amorais ou que já não respondem por si.

Obviamente, há termos mais adequados para nos reportarmos à temática e podemos falar sobre eles em um outro momento. Cabe, diante da proposta do blog, apenas pontuar que não é preciso estigmatizar, patologizar, enquadrar e resumir os indivíduos a um aspecto de suas vidas para se reportar a eles.

Retornando ao tema do post: o adolescente chinês morreu poucos dias depois de ter sido internado em um destes campos especializados no tratamento da adição à internet. O jovem de 18 anos teria sofrido inúmeros ferimentos, evidenciados pelas cicatrizes espalhadas por todo o corpo. O diretor e funcionários da instituição foram detidos pela polícia.

A forma de tratamento proposta por grande parte destes campos “especializados” é bastante questionável e os métodos propostos são excessivamente rígidos: algumas instituições falam abertamente sobre impor regime militar aos internos.

A matéria do portal português RTP aponta o crescimento significativo destas instituições que possuem métodos de tratamento deveras questionáveis e controversos. Alguns métodos incluem até punições corporais e eletrochoque.

Em uma breve pesquisa pela internet, é possível encontrar matérias que noticiam, por exemplo, adolescentes que mataram os seus pais por terem sido internados nestes centros e terem sofrido toda uma série de abusos físicos e psicológicos. Em 2009, foi noticiado que um dos internos fora espancado até morrer por dois profissionais deste centros. Leia.

Ainda sobre o tratamento questionável, também são propostas internações compulsórias ou involuntárias, uso de trajes camuflados militares e de rotina militar, encarceramento dos internos, exercícios físicos à exaustão, que também podem ser usados como forma de punição, bem como -não poderia faltar- tratamento medicamentoso.

Em 2010, já existiam cerca de 400 centros de reabilitação para a adição à internet, número que é alarmante. Estima-se 10 milhões de jovens sofrendo de adição à internet (diagnóstico formulado, primeiramente, por chineses), na China.

Em linhas gerais, a descrição deste centros se assemelha bastante ao modo como as comunidades terapêuticas funcionam no Brasil. Os métodos cruéis, no entanto -e até onde se sabe-, não são aplicados.

Durante o tempo em que atuei em CAPS AD, tive contato com várias comunidades terapêuticas. Algumas bem sérias e outras denunciadas por violação de direitos humanos.

Sobre a metodologia proposta, mesmo considerando as instituições mais sérias, muitos profissionais, incluindo eu, questionam a eficácia destes tratamentos.

Há a ideia de que muitos destes sujeitos encontram na comunidade terapêutica uma fuga à realidade, ou seja, em outras palavras, estes sujeitos buscam estar virtualmente longe das substâncias de que fazem uso problemático e, por este único motivo, permanecem em abstinência durante o período da internação.

Há de se falar também que estes sujeitos não podem viver eternamente internados e, dependendo da proposta terapêutica experimentada, estes sujeitos podem não ter ressignificado uso de substâncias em suas vidas ou até mesmo não ter desenvolvido habilidades para permanecer longe dessas substâncias quando não estão forçados a isso, pelo próprio isolamento social proposto na internação.

Trata-se de um dos motivos pelo qual são altíssimos os indicadores de recaídas após períodos de internação em comunidades terapêuticas. Realidade essa que, possivelmente, será reproduzida na experiência do tratamento chinês para adição à internet proposto por estes campos especializados. Existem, obviamente, questões culturais e sociais que precisam ser levadas em conta, mas não me parece sequer adequado, por exemplo, fazer uso de eletrochoque como forma de punição aos sujeitos.


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