ANÁLISE: Wolfenstein: Youngblood – Boas ideias com uma execução ruim


Depois de deixar os fãs em um cliffhanger no game anterior, a franquia Wolfenstein traz um “spin-off” em que tira o foco do protagonista William “B.J.” Blazkowicz e dá a chance a uma nova geração aprender como é que nazistas são devidamente tratados. Agora entram em ação as filhas de Blazkowicz, que precisam descobrir o paradeiro do pai depois dele desaparecer subitamente (e por vontade própria, aparentemente).

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A introdução das duas personagens chega para também trazer uma novidade para a série: o co-op. Wolfenstein deixa de ser uma campanha solitária de B.J. e agora tem as gêmeas atuando em conjunto, trazendo uma importante novidade na mecânica do jogo. O cenário também deixa para trás os anos 60 dos games anteriores e ainda usa da nostalgia para construir a ambientação, mas agora em uma França dos anos 80.

História e Ambientação

O novo game mantém algumas fórmulas introduzidas no primeiro game dessa nova fase da franquia Wolfenstein: ambientação nostálgica ao inserir o game em uma década do passado, mas imaginando uma realidade em que a tecnologia nazista deu saltos inimagináveis em curtos períodos de tempo.

A ambientação nos anos 80 não ficou muito convincente

Em Youngblood a execução ficou bem menos interessante: o jogo não conseguiu trazer uma ambientação que remeta aos anos 80, com exceção de referências mais forçadas ou algumas trilhas sonoras. O visual acaba parecendo mais futurístico devido a parafernália nazista, e pouco caracterizado nos anos 80.

 

As irmãs Blazkowicz ficaram bem abaixo do seu potencial de criar novas personagens interessantes para a série

Mas o maior problema acontece no enredo. Wolfenstein e Wolfenstein II New Colossus se escoram em um enredo interessante, marcado por maluquices e protagonistas fortes, com destaque para Blazkowicz. Passar o bastão para as gêmeas Blazkowicz trouxe um alto potencial de novidades, com múltiplos conflitos novos como novatas precisando lidar com a guerra ou interações típicas de irmãs adolescentes, mas a execução ficou incrivelmente desinteressante.

As cutscenes são bastante monótonas, e até tentativas de adicionar alguma profundidade às Blazkowiczs, mostrando seus hobbys e flashbacks do relacionamento com o pai, por exemplo, falham em criar personagens carismáticos. Seria muito legal algum novo tipo de protagonista para a série além do badass indestrutível, e irmãs gêmeas meio alopradas parecia uma ótima pedida para o caos da franquia, mas não funcionou.

Jogabilidade

Minha experiência com Wolfenstein tem dois pilares: a história, mirabolante, carregada de clichês e cheia de ação com nazistas sendo assassinados de formas variadas e violentas; e a jogabilidade, frenética, divertida, variada e cheia de ação com nazistas sendo assassinados de formas variadas e violentas. Se por um lado a história não convence, a jogabilidade mantém a qualidade, mas com ressalvas.

A jogabilidade segue como o destaque da série, e conta coma novidade do estilo cooperativo para dois jogadores

O gameplay segue sendo o ponto alto do jogo, com muita ação, correria pelo mapa, armaduras sendo explodidas e nazistas sendo desmembrados. A variedade de armas é interessante, e arremessar uma machadinha na cara de um comandante da SS, correr alguns metros e depois deslizar atirando no próximo alvo enquanto esquiva de lasers é sempre ótimo.

As coisas complicam um pouco por conta da grande novidade: a introdução no co-op. O jogo foi criado para se jogar com um amigo, com cada um controlando uma das gêmeas Blazkowicz. Trazer mais um jogador para a ação do jogo adiciona um pouco mais de diversão ao jogo, com a dupla precisando se coordenar para enfrentar as ameaças que surgem pelo mapa. 

Infelizmente a criatividade para por aí. Tirando o recurso em que uma irmã pode motivar a outra de tempos em tempos (o que dá boosts de vida e armadura, além de frases engraçadas como “você manda muito mana”), a maior parte do tempo o jogo é simplesmente um single-player preguiçosamente escalonado para dois, com mais inimigos e com vários botões e alavancas de que precisam ser puxados por duas pessoas porque sim. Ou melhor dizendo, porque esse é o design de fase simplório usado. Poderiam ao menos “roubar” (no bom sentido) algumas ideias de Portal 2 de como criar fases interessantes para dois jogadores, com algo mais elaborado do que “por o dobro de inimigos porque tem o dobro de jogadores”.

Dá até para jogar sozinho, mas é só uma adaptação preguiçosa que coloca um NPC para controlar o outro jogador

E para quem quer ficar no clássico, e quer seguir jogando Wolfenstein sozinho, boas e más notícias: dá para fazer, mas não está bom. Apesar do jogo ser anunciado como “Junte-se a um amigo ou jogue solo como uma das filhas gêmeas de B. J. Blazkowicz”, jogar sozinho é basicamente a mesma coisa que jogar com um amigo, só colocado um NPC para controlar a outra irmã. Nas vezes que experimentei jogar sozinho, é irritante o número de vezes que precisei salvar minha irmã controlada pela IA porque ela achou uma boa ideia bloquear um laser de um robô gigante nazista com a cara.

Isso é especialmente irritante já que o jogo incentiva a cooperação através da “vida compartilhada”.  Quando um jogador cai mas é levantado a tempo pelo outro, não é gasto nada, mas se um jogador chega a morrer, uma vida é gasta. Se os jogadores ficam sem vidas, uma jogadora caída causa um game over e lança você para o início da missão. Com dois jogadores humanos funciona bem, já que leva a coordenação dos dois jogadores, mas também faz com que eu precise me importar com esse NPC torrando as vidas compartilhadas porque se expõe em excesso. Esse jogo co-op adaptado para single-player tem também outras bizarrices herdadas, como o fato do game não pausar quando você abre o menu, por exemplo.

Ter que passar várias vezes no mesmo lugar é um tanto monótono

Outra mudança relevante no jogo tem a ver com o design das fases. No lugar de fases muito lineares dos anteriores, o jogo tem um mapa com liberdade de deslocamento para o jogador, com missões espalhadas pelos lugares, algo que ficou muito bom em Prey, mas que não funcionou tão bem aqui. Inevitavelmente o jogo pode ficar um pouco monótono, quando você tem que passar pelo mesmo lugar 5, 6 ou até 10 vezes, e encontrar uma leva renovada de nazistas para ser dizimada. Para piorar, o jogo não é nem um pouco orgânico, pois é pisar um centímetro para fora de uma região para que ela seja automaticamente repovoada de inimigos (e os mesmos de antes) por completo. Em Prey isso ficou mais interessante porque a base espacial se transforma na medida que o jogo progride, algo que não acontece com a mesma eficiência por aqui.

Além de tirar a imersão do game, que deveria “esconder melhor” como ele funciona, dá uma sensação de inutilidade em tudo que é feito, já que depois de dizimar inimigos, vão estar todos ali de novo logo na sequência. É como um pesadelo de limpar a casa e, cada cômodo que você avança, o anterior está sujo de novo.

Tem microtransações por aqui, mas não fazem muita diferença

O jogo inclui as sempre polêmicas microtransações, mas temos aqui uma das implementações que menos parece impactar no jogo. Na realidade, se você não prestar atenção, pode passar batido pela possibilidade de gastar dinheiro para comprar as customizações de armas e equipamentos, todas meramente estéticas. Se por um lado a fórmula do “demora muito pra liberar se você não paga” se aplica por aqui, em contrapartida o jogo não fica te empurrando a possibilidade de gastar para ter aquela roupa com cor excêntrica. Sinceramente, dá pra passar pelo jogo todo ignorando completamente esse aspecto e não sentir nenhuma falta.

Gráficos e Som

Os gráficos me agradaram muito ao longo dos games anteriores, e Youngblood não decepciona. Os efeitos de luz e sombra estão excelentes, os ambientes estão bastante trabalhados e os nazistas em seus dois estados físicos, vivos e geleia, estão bem trabalhados.

Os gráficos estão em excelente nível nesse game

O game receberá o Ray Tracing da linha GeForce RX porém, antes mesmo disso, já impressiona o excelente serviço feito pela desenvolvedora nos mapas, as armas e os personagens.

O principal contra fica na parte das cutscenes. Apesar de alguns enquadramentos criativos e cenas de efeito, como acontecia nos games anteriores, falta um pouco mais de expressividade nos personagens, tanto no rosto quanto nos movimentos. Toda cutscene eu fico com a impressão de ver bonecos de mexendo de forma totalmente artificial, enquanto as expressões faciais não ficaram naturais e as vezes parecem nem funcionar com o que está sendo dito.

Na parte de áudio temos um bom serviço, com trilhas pesadas acompanhando tiroteios, explosões e gritos. Os efeitos sonoros casam bem e dão intensidade à vibe do jogo, com coisas amassando, quebrando e explodindo com um bom apoio dos efeitos do áudio. 

O jogo conta com português brasileiro tanto no texto quanto áudio

Além de ser traduzido totalmente para o português no texto (exceto coisas como os nomes das armas, mantido de propósito em alemão) é sempre louvável o esforço da publicadora em traduzir o jogo também nas vozes. Porém, como já aconteceu em games anteriores da franquia, a qualidade infelizmente não manteve o mesmo patamar da versão em inglês. Além de algumas falas com pouca expressividade, mais uma vez diversos personagens perderam seu sotaque, algo que é notável na versão em inglês, com membros da resistência francesa possuindo um evidente sotaque, por exemplo.

Conclusão

Wolfenstein Youngblood trouxe várias excelentes ideias para a mesa. Jogar em modo cooperativo com um amigo sempre aumenta o potencial de diversão de um game, mas manter a possibilidade de jogar sozinho não aliena os fãs da franquia acostumados com a experiência solitária. Introduzir novas personagens também parecem uma boa pedida para garantir um ar de novidade ao jogo. Mas, no fim do dia, a execução foi onde o plano deu errado.

Avaliação: Wolfenstein: Youngblood

O jogo falha em tornar as irmãs Blazkowicz em personagens interessantes, enquanto o cooperativo não consegue ser nada muito além de “a mesma coisa só que em dobro” da versão single-player. E para piorar, quem não estava interessado no co-op, tem um jogo com um balanceamento esquisito, um NPC pendurado pra carregar pelo jogo e coisas sem sentido como dois botões e duas alavancas para abrir portas e avançar no jogo, além de uma vida compartilhada com um bot para administrar. 

Quem garante o dia é o gameplay. A cadência acelerada e os combates frenéticos seguem como o grande destaque da franquia, e frente a todos os outros problemas, ainda são suficientes para justificar a compra para quem gostou dos games anteriores ou gosta de um bom jogo de tiro. Mas, definitivamente, recomendo jogar com um amigo.


PRÓS
Mecânica de tiro segue excelente

Bons gráficos e trilha sonora

Enredo maluco e satírico

Introdução do cooperativo trazem novidades ao jogo

Totalmente traduzido para o português brasileiro

Tem microtransações mas não impactam de forma notável no jogo


CONTRA
História menos interessante que as anteriores

Game falha em tornar as Blazkowicz em personagens carismáticos

Jogo fica sem sentido jogado sozinho

Dublagem em português descaracteriza os personagens



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About the Author: Marisa Ferreira

Pioneiro profissional zumbi. Especialista em internet incurável. Praticante de TV. Comunicador.

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